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Por que todas as marcas querem parecer artesanais agora?

Brasil

 Oiee!

Não sei se vocês também perceberam isso, mas parece que de repente TODA marca quer ter alguma coisa com cara de feita à mão. Principalmente no design e nas identidades visuais que tenho visto ultimamente, tem bordado, carimbo tortinho, desenho de canetinha, letras que parecem recortadas, papel rasgado, colagem, textura de xerox, giz, fita adesiva, rabiscos que parecem ter sido feitos em cinco segundos e fontes que fazem questão de não ser perfeitamente alinhadas.

E eu acho engraçado porque passamos anos tentando fazer o digital parecer cada vez mais perfeito. A gente queria imagens super nítidas, vetores impecáveis, grids certinhos, fontes geométricas, interfaces limpas e identidades em que tudo encaixava perfeitamente. Até aquilo que era realmente feito à mão muitas vezes acabava sendo vetorizado, corrigido e limpo até perder qualquer sinal de que uma pessoa tinha passado por ali.

Agora parece que estamos fazendo exatamente o caminho contrário, e eu não acho que seja simplesmente porque o design artesanal voltou a ser tendência. Para mim, existe uma coisa um pouco maior acontecendo por trás disso.


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Dupe photos


Por que o perfeito começou a ficar meio sem graça?

Quanto mais fácil ficou produzir alguma coisa visualmente perfeita, menos impressionante a perfeição começou a parecer. A gente abre o celular e vê centenas de imagens extremamente bem produzidas todos os dias: templates perfeitos, fotografias impecáveis, layouts organizados, mockups lindos e, agora, imagens inteiras geradas em segundos.

Existe tanta coisa visualmente correta ao nosso redor que, em determinado momento, aquilo começa a virar paisagem. E é justamente no meio dessa quantidade enorme de imagens polidas que uma letra meio torta, uma mancha de tinta, um desenho que claramente não foi feito para ficar simétrico ou um pedaço de fita crepe aparecendo na composição consegue chamar a atenção.

Não necessariamente porque é mais bonito, mas porque tem alguma coisa ali que parece mais humana.

Acho que presença humana é uma expressão importante quando a gente fala dessa volta do feito à mão no design. Quando eu vejo um bordado, por exemplo, automaticamente existe a ideia de alguém fazendo aquilo. Tem tempo envolvido, tem material, movimento, tentativa e talvez até algum errinho no caminho. Mesmo quando esse bordado foi digitalizado ou reproduzido depois, a referência visual ainda carrega todas essas associações.

Com carimbo acontece uma coisa parecida porque ele nunca sai exatamente igual duas vezes. A colagem deixa perceber o recorte, a letra escrita à mão muda um pouquinho de uma palavra para outra, o papel amassa, a tinta falha e o giz deixa sujeira. São características que durante muito tempo o design tentou corrigir e que agora aparecem justamente como parte da graça.

Essas imperfeições funcionam quase como pequenas pistas de que alguma coisa aconteceu ali antes da imagem chegar pronta para a gente.

E acho que isso ficou ainda mais valioso porque estamos vivendo em um momento em que é cada vez mais difícil perceber o que realmente teve uma mão humana no processo. Não quero transformar isso naquele discurso de “IA acabou com a criatividade”, porque acho muito mais interessante observar o efeito visual que esse momento está causando.

Se uma ferramenta consegue produzir em segundos uma imagem extremamente polida, talvez o luxo visual deixe de estar somente na perfeição e comece a aparecer também naquilo que transmite tempo, processo e escolha.

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Dupe photos


O artesanal virou uma linguagem visual

É por isso que acho tão curioso ver até marcas enormes usando bordados, ilustrações simples, fotografias que parecem analógicas, papel texturizado, colagens e lettering propositalmente irregular. Mesmo quando existe uma equipe inteira por trás deixando cada detalhe absolutamente calculado, a estética escolhida transmite uma sensação de espontaneidade.

É quase como se a marca tentasse dizer que aquilo não saiu de uma máquina perfeitamente organizada, mesmo quando, tecnicamente, talvez tenha saído hahah.

Também existe uma coisa de intimidade nessa estética handmade. Um grid perfeito pode ser lindo, mas uma anotação escrita à mão parece pessoal. Uma fotografia super produzida parece campanha, enquanto uma foto com flash, levemente torta, pode parecer lembrança. Uma embalagem minimalista extremamente certinha parece produto; já um adesivo um pouco irregular parece alguma coisa que alguém escolheu colocar ali.

São diferenças pequenas, mas que mudam completamente a sensação da imagem.

Acho que por isso o artesanal aparece tanto em identidades visuais que querem transmitir proximidade, autoria ou independência. Ele cria uma sensação de que existe uma pessoa por trás daquilo, e aqui mora uma parte que eu acho particularmente interessante: nem sempre existe.

Uma marca pode ter milhares de funcionários, uma campanha milionária e um processo de produção completamente industrial e, ainda assim, construir um branding artesanal cheio de desenhos à mão, carimbos, bordados e papel rasgado.

Porque o artesanal deixou de ser apenas uma forma de produção e também virou uma linguagem visual.

E toda linguagem vem carregada de significados. Quando uma marca escolhe uma serifada clássica, ela puxa determinadas referências. Quando escolhe cromado, outras. Quando coloca um bordado em uma campanha, ela também traz junto tudo aquilo que a gente culturalmente associa ao feito à mão: cuidado, tempo, singularidade, proximidade, memória e imperfeição.

Não significa necessariamente que aquele objeto foi realmente produzido de forma artesanal. Significa que a marca está usando os códigos visuais do artesanal para provocar determinadas sensações.

É mais ou menos como colocar textura de madeira em um ambiente que não tem madeira de verdade. O material pode não estar ali, mas a associação continua chegando.

Quando até a imperfeição começa a ficar genérica

Só que, como acontece com praticamente toda tendência de design, chega um momento em que repetir esses códigos também começa a produzir o efeito contrário.

Se TODAS as marcas colocarem uma estrelinha torta, uma fonte irregular, um rabisco no canto, um carimbo e uma textura de papel escaneado, daqui a pouco a gente vai olhar para esse tipo de identidade visual artesanal exatamente como olha hoje para algumas identidades minimalistas de alguns anos atrás.

Continua bonito, mas começa a ficar previsível. E acho que essa é a parte que mais me interessa nessa discussão, porque o problema nunca foi o minimalismo e também não vai ser o bordado, a colagem, o giz ou o carimbo. O problema começa quando a gente escolhe uma linguagem simplesmente porque ela está aparecendo muito, sem perguntar se existe alguma relação entre aquilo e a personalidade da marca.

Uma estética artesanal pode fazer MUITO sentido para um projeto que fala sobre processo, memória, afeto, comunidade, experimentação ou qualquer outra coisa que encontre significado nesses elementos. Mas ela também pode virar só uma camada decorativa colocada em cima de uma marca que não tem absolutamente nada a ver com aquilo.

E aí voltamos para uma coisa que eu sempre penso quando vejo tendências de identidade visual: não é porque uma referência está em alta que ela automaticamente faz sentido para todo mundo.

Talvez essa volta do artesanal no design seja, na verdade, menos uma vontade coletiva de voltar a fazer tudo manualmente e mais uma reação ao excesso de perfeição que a gente acumulou nos últimos anos.

Depois de passar tanto tempo tentando tirar os erros das imagens, estamos começando a colocar alguns deles de volta de propósito. A diferença é que agora aquela falha da impressão, o recorte irregular, a letra torta ou o papel amassado deixam de ser uma coisa que precisa ser corrigida e passam a fazer parte da própria direção de arte.

E eu acho muito interessante pensar que chegamos em um momento em que conseguimos deixar quase qualquer coisa perfeita e, justamente por isso, aquilo que parece ter escapado um pouquinho dessa perfeição começa a parecer especial.

Talvez seja por isso que o feito à mão esteja aparecendo tanto agora. Não porque desaprendemos a gostar do perfeito, mas porque estamos começando a sentir falta de enxergar alguma coisa humana no meio dele. Vocês também perceberam essa volta do artesanal nas identidades visuais? O que mais tem aparecido para vocês ultimamente: bordado, carimbo, colagem, lettering, papel ou aquele rabisco propositalmente tortinho?

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